sábado, março 19, 2005

Desculpa pra queimar mato


Os cantadores de reggae são o exemplo clássico dos seguidores medíocres de um líder genial. Tirando um pezinho do chão de cada vez, saúdam os mantras vazios de um arremedo de filosofia, cantando seus "liberdade pra dentro da cabeça". Louvam, e apenas isso, a atitude e o talento que outros tão melhores tiveram. Não se vê mais as letras ativistas, politizadas, que tocam nas feridas da vida. Bob Marley não fez reggae pra embalar festinhas de maconheiros. E hoje o gênero, que até ensaia uma volta à moda, está mais vazio do que as letras do Cidade Negra e do Tribo de Jah. Algo como se toda a obra de Bertrand Russel fosse reduzida ao slogan "O trabalho empobrece o espírito". Os rasta-men de hoje são péssimos. Compõem covers das músicas de Bob e Peter Tosh, e acham que suas canções são inéditas. Seu eu usasse linguajar chulo – o que não faço -, diria que gozam com o pau dos outros. Mas eu não diria isso, claro. Diria que o único reggae de raiz – yes, já batizaram a parada – hoje em dia não dá música boa, nem letra boa, nem nada bom. Só THC.

sexta-feira, março 18, 2005

O Malfazejo recomenda


Ouço música correndo atrás dos espasmos de encantamento que surgem em meio ao marasmo medíocre do dia-a-dia. Assim comecei a me encantar com os Rolling Stones: nos créditos do meu filme de guerra favorito, Nascido para Matar. Com os primeiros acordes de Paint it Black eu me interessei por eles de um jeito que nunca consegui me interessar pelos Beatles. Assim foi com 7 Seconds, de Neneh Cherry e Youssou N'Dour e com o disco Trust, do pianista John Boswell, que ouvi num avião e nunca encontrei pra comprar. Trust é meu Santo Graal atual, junto com aquela beleza de trilha da propaganda do Chivas. Conheci Leonard Cohen na primeira cena de Assassinos por Natureza, com sua Waiting for a Miracle enfeitando a película amarelada (aquela que Hollywood usa pra filmar no México, por exemplo). Ali a minha paixão nasceu. Hoje, com esse The Essential Leonard Cohen nas orelhas, me sinto como todo crente recém-convertido deveria se sentir: estou aquecido nesse inverno, e quero que tudo mais vá pro inferno.

quinta-feira, março 17, 2005

País mono em planeta True Color


Severino facilita a vida do Brasil. É vilão daqueles folclóricos, simplórios. Há até quem goste dele: como sempre, os dioguitos do Brasil, doidos para avacalhar com o senso comum. É político, iletrado, nordestino, tem orgulho da “filha estudada” e atende por um nome que é quase o título do estereótipo cangaceiro. Em miúdos, é a Nazaré da novela, vilã declarada, orgulhosa de suas maldades. Assim sim, captamos a mensagem e saímos à gritaria. Mas Severino, a anta nordestina que agora chefia as hienas parlamentares, também tem suas nuances mais complexas. Agora eles conseguiram o aumento que tantos protestos causou quando Nazaré riu diabolicamente. E é assim que funciona. Aqui, Nazarés acabam se atirando de pontes no último capítulo. Mas vilões mais astutos, Toms Ripleys com maior acervo de facetas, conseguem o que querem. Ninguém aceitou o aumento no salário? Tudo bem, a gente aumenta na verba de gabinete. Pronto, ninguém viu. Sshhh... silêncio... a nação está dormindo, feliz com os casamentos do fim da novela...

Gates... Elizabeth... Sultão de Brunei... Fidel???!!!


Comunista, anti-imperialista, anti-consumista, anti-americano, anti-liberdade, anti-democracia. Está na Forbes, a Caras dos milionários imperialistas. Um dos homens mais ricos do mundo. E continuamos tendo que aturar quem o admire...

terça-feira, março 15, 2005

Strange fruits are the sweetest ones


Eu via Mickey Rourke arrumando os lençóis da cama de casal, sob o ventilador de teto, que fazia um efeito estroboscópico em slow-motion com a luz do sol. Acabara de convencer Kim Basinger a acompanhá-lo até sua casa. Dela lembro o olhar receoso e seduzido, a expressão ainda mal feita duma atriz ruim, mas com lábios ótimos. Então o cara saca um vinil de Billie Holiday. É a gota. Assustada - e definitivamente adorando a sensação -, kim diz algo como "Você tem certeza que já conseguiu, né?". As 9 e meia semanas seguintes respondem a pergunta.

Billie Holiday é a melhor das cantadas.

segunda-feira, março 14, 2005

Notas de segunda-feira

Cientistas espanhóis identificaram uma molécula que permite a expansão do câncer. A descoberta abre a possibilidade de que o próprio organismo combata a doença, dispensando a quimioterapia e a radioterapia. Os estudos vão continuar. Tomara que tudo dê certo.

No Paraná, a polícia já prendeu 200 ladrões de relógios de luxo, que vinham de São Paulo. Altamente especializados nas marcas mais caras, são financiados por grandes receptadores paulistanos. Irônico, isso. Ver paulistanos indo pra outros estados pra roubar.

Damião da Silva, filho de desempregados, vigia de 22 anos, recebeu 2 mil reais a mais do que o seu salário, de 440. Devolveu tudo. O prefeito da cidade, João Pessoa, quis conhecê-lo e parabenizá-lo. O que eu disse na semana passada sobre os honestos?...

A boate Blanc, na cidade de Santo Domingo, República Dominicana, promoveu um concurso de tequila. Simples: quem bebesse mais, ganhava cerca de 1.000 reais. Resultado? Um rapaz morto e outros três em estado grave. Abalaram, u-hú!

Abbas acusa Sharon de boicotar paz. Pelo jeito acabou a Lua de Mel. Bem disse Maggie Tatcher: "Se você quer que algo seja dito, peça a um homem. Se você quer que algo seja feito, peça a uma mulher".

Uma família maranhense vinha sendo procurada desde a tragédia na Ásia, no fim do ano passado. Haviam viajado para a Tailândia e o Itamaraty não conseguia informações sobre pai, mãe e seus cinco filhos. Enfim a busca acabou, com final feliz. A família havia se mudado de Zé Doca, no Maranhão, para Tailândia, cidadezinha de 38.000 habitantes. No sul do Pará.

Maria Braulina Alves, de 83 anos, foi presa na Bahia. Não urinou em via pública, não assaltou a farmácia nem surrupiou linha de crochê da loja de armarinhos. Traficava maconha. Tinha 1 tonelada consigo, no momento da prisão.

Depois de passar três dias atrás das grades na cidade de Arauca, a 400 km da capital colombiana Bogotá, um burro detido sob suspeita de causar um acidente de trânsito foi solto nesta quarta-feira sob fiança. Além de ser réu primário, Pacho, o burro, estava colaborando com as investigações, teve seu passaporte confiscado e tem residência fixa.

FEBEM de Tatuapé, em São Paulo: Quando um incêndio ou uma invasão policial matar centenas e a mídia mundial mostrar a cara do Brasil, os secretários de turismo e de segurança finalmente vão aparecer, condenando os Matt Groenings e Larry Rothers da vida.

É impressão minha ou a decisão pessoal de Lula de intervir na saúde carioca é pura e simples campanha política?

Greve de motoristas e cobradores em Manaus. Caos, engarrafamento, filas, atrasos, piquetes. No rádio, Ronaldo Tirandentes, o monoglota, chama Serafim de incompetente. No palanque, Sabino Pozinho Branco e Padre Braz Silva, o carismático, chamam Serafim de incompetente. Com inimigos como esses, quem precisa de amigos?

sexta-feira, março 11, 2005

Da customização

Na livraria, gostava de folhear os livros, especialmente os best-sellers, na gôndola da entrada. Encontrou o Desvendando, o Revelando, o Quebrando, o Decifrando, o Soletrando e o Silabando o Código Da Vinci. Gostou mais das orelhas simpáticas dos dois últimos:

Soletrando o Código Da Vinci
"Vamos lá, repita comigo: C, Ó, D, I, G, O, respire, D, A, respire, V, I, N, C, I."

Silabando o Código Da Vinci
"Diga em voz alta, depois de mim: cê, ó, có; dê, i, di...

quinta-feira, março 10, 2005

Apesar de você, Chico


Chico Buarque e Michael Kepp

O jornalista americano Michael Kepp, casado com uma brasileira, escolhe uma das unanimidades nacionais – Chico Buarque - e atira. Em seu artigo Deus realmente existe ou ele é só o Chico Buarque?, que li na Superinteressante, acerta quando diagnostica a veneração que o brasileiro tem por seus ídolos. Peca, pelo cinismo e pelo atalho fácil que toma para dar um tempero (desnecessário; falar do Chico já basta) a seu julgamento. Agora que o Chico protagoniza as revistas de fofoca, lembrei desse artigo. Recomendo aos adoradores de Chico, aos anti-americanos e aos praticantes da Seita do Polemista Preguiçoso.

quarta-feira, março 09, 2005

O Circo dos Horrores chegou

Jaime Monjardim, Marcos Viana e Glória Perez
Oh, Deus. Abençoai as criancinhas indefesas que serão batizadas de Sol a partir de agora. Acalmai a inveja que se abaterá sobre as pequenas Jades espalhadas pelo país. Protegei os forrozeiros e pagodeiros, que de súbito tornar-se-ão compositores da legítima música country brasileira. Abençoai Murilo Benício e Déborah Secco, a nata da dramaturgia nacional. Que seus namorados se despeçam. Que a Caras e a Contigo se preparem. Trazei do limbo, novamente, toda a família Glória Perez (Raul Gazola, ET de Varginha, Preta Gil, Eri Johnson, Saci Pererê...) Perdoai Matheus Nachtergaele, o Robin Williams nacional; ele não sabe o que faz. Iluminai o bordão grudento que alguém do núcleo pobre repetirá, até que todos nós o absorvamos. Consolai as comunidades que serão ofendidas. Tornai surdo e cego o bom senso. Abençoai a invenção da tevê por assinatura, do controle remoto, a finitude das coisas. Ajudai-me a aturá-los, os fãs, os espectadores. Apartai-me dos chapéus, das fivelas, das botas e das músicas que terei de ouvir. Ajudai-me, ó Deus, a vencer mais essa provação.

Bittersweet Symphony

Os pobres, aqueles que nunca deixarão de ser pobres, acreditam demais. Quando crianças aprendem a ler e pouco a escrever, lembrando das ingênuas palavras de seus pais, invariavelmente semi-analfabetos: se você quiser ser alguém na vida, estude, meu filho. Então eles estudam. Decoram tabuadas, aprendem a separar os sujeitos dos predicados. Mas quando a hora da recompensa chega, a vida os enrola, como o chefe que não lhes paga o que deve. Dia após dia o ritual do prato feito, do vale-transporte, do cansaço e da coxinha com refresco se repete. Não há diploma, não há vitória. Só uma profunda e insistente felicidade, apoiada na fé, nos santos e nas promessas. O pobre é antes de tudo um crente. Quanto maior sua pobreza, maior sua fé. E morrem nas filas governamentais, à espera da benção – divina, claro – do ordenado da aposentadoria. Quando não tombam, voltam exultantes pra casa, com suas sacolas de feijão de terceira, para alimentar os filhos desempregados, que também estudaram quando crianças. Ligam a tevê, queimam o lixo e sentem-se num churrasco de fim-de-semana. São felizes, tombando um após o outro, como células mortas de uma ferida gigantesca chamada Brasil.

terça-feira, março 08, 2005

Oferta e Procura

Minorias chamam atenção, e por isso meu país gosta tanto de gente que anda fazendo honestidades ou sendo bonito por aí, à luz do dia, impunemente. Guardas que multam, caixas de banco que não atendem furões, fiscais que autuam, policiais que prendem, médicos que curam, professores que ensinam, servidores que trabalham... Todos deveriam ficar famosos e sair no site Paparazzo. As câmeras escondidas dos Fantásticos deveriam flagrar o honesto em pleno ato de honestidade. O açougueiro que não adultera a balança, o dono de posto que vende gasolina de verdade, o mecânico, o encanador e o advogado que não enganam. O clímax do Teste de Honestidade seria a oferta do suborno, sob rufar de tambores. No momento do “Não, obrigado, isso não é certo”, portas deveriam abrir, familiares, amigos e figurantes deveriam vir em aplausos; luzes e flashes deveriam mirar no honesto. Dali, o honesto deveria ser levado, de helicóptero, ao Faustão, onde seu Arquivo Confidencial seria aberto, sem censura, sem cortes, para a nação inteira. O padeiro contando do troco a mais devolvido na infância, a professora de matemática lembrando de quando ofereceu ajuda ao honestinho durante uma prova, e recebeu como resposta um “não, tia, isso não é certo”. Biólogos fariam mesas redondas, explicando à população como acontece o fenômeno dos Ursos Pandas Albinos e dos Honestos.

Haverá um dia em que CPIs caçarão ferozmente os honestos. Carros populares de segunda-mão, churrasqueiras de bafo e DVD players malaios (com karaokê) serão confiscados, contas-salário da Caixa serão investigadas, conexões de tevê a cabo e energia elétrica serão averiguadas pela PF. Celulares de cartãozinho serão monitorados, com a permissão da justiça. Flagrados, os honestos serão apresentados à população, sondados pela Marlene Matos e farão propagandas pro Polishop. Muito dinheiro, dinheiro fácil. E tudo à custa de muita honestidade.

Atualização: um delegado da PF gravou imagens suas, dando voz de prisão a um advogado que lhe oferecia suborno. Ao ver o desonesto, simples mortal, de joelhos, pedindo clemência, falou grosso, quase fazendo pose pra sua própria câmera: “Levanta, rapá, seja homem pra ser preso como foi pra oferecer dinheiro, rapá! Esse país ta mudando rapá, cê não vai mais fazer isso, não!”. Esse vai pra propaganda do governo, igual Seu Raimundo, porque “não desiste nunca”.

segunda-feira, março 07, 2005

Notas de segunda-feira

Desavisado, um intérprete de Daniel Passarella, novo técnico do Corinthians, compareceu a uma entrevista coletiva com uma camiseta verde. Quase apanhou da Fiel. Com as raras exceções que confirmam qualquer regra, as torcidas são o que há de mais primitivo e ignorante na raça humana.

Severino Cheque-Cheque: Deve se candidatar à Presidência da República pelo PP em 2006. Tem meu total apoio, pois gosta de cumprir suas promessas. Em seu governo, cada cidadão ganhará carro oficial, auxílio combustível, auxílio moradia, auxílio educação, auxílio vestuário, engraxate, cafezinho, passagens aéreas e emprego pro resto da família.

Ainda Severino: O presidente da câmara afirmou que qualquer eleitor que precisar de ajuda pode procurá-lo e deu o exemplo de um eleitor que foi pego dirigindo com a carteira vencida e ligou para ele, que conseguiu que o policial liberasse o motorista sem habilitação. O outro caso se referiu a um amigo que em uma briga acabou quebrando um bar. Taí um brasileiro porreta! E ainda diziam que era Lula a personificação do brasileiro típico...

Um sorriso – Parece que a banda Charlie Brown Jr. acabou. Até que enfim...

Uma lágrima – Netinho (mais um que enriqueceu gemendo) e Alexandre Pires (o maior mega-astro mundial de Viña Del Mar) montaram sua própria gravadora de discos. É isso que dá deixar livres um bêbado que mata no trânsito e um espancador de mulheres. Bem feito pro Brasil.

Os EUA acusam - corretamente - a China de violar os Direitos Humanos. A China devolve citando – devidamente - Abu-Ghraib e Guantânamo. Sabe o sujo falando do mal lavado? Pois é.

Um deputado amigo do Ratinho apresentou projeto de Lei sugerindo a criação do Dia Do Cachorro. Muito me surpreenderia se o amigo do Ratinho sugerisse o Dia do Gato.

Uma funerária da Hungria começou a estabelecer os preços dos enterros de acordo com o peso do cliente. Seus serviços incluem um bufê completo de saladas, massas e carnes. O cliente que acertar o peso exato de seu ente morto leva o enterro de graça, além de um pet de Guaraná Magistral 600ml geladinho. O problema é agüentar o músico de quinta categoria cantando Yolanda.

Querem indicar aquela modelo (futura apresentadora-atriz-cantora) expulsa do casamento do Ronaldo para receber um Prêmio pelo Dia Internacional da Mulher. Depois vocês, mulheres, ficam se perguntando por que os homens continuam dominando o mundo...

O Malfazejo completou 10.000 acessos hoje. Obrigado pelas visitas, pelos comentários e pelas sugestões. Só não posso pagar umas hoje pra vocês porque sou honesto, ou seja, liso. Mas aceito doações, privilégios, vantagens...

sexta-feira, março 04, 2005

E assim morreu Mané Galinha...


Josué Filho deu o grito ontem, às margens do Igarapé da Cachoeirinha, de lançamento da candidatura de Eduardo Braga à reeleição. Não que a campanha maciça do Estado em todo o tipo de mídia não tenha revelado a surpreendentíssima intenção do cadeirudo. Mas com a população de matutos dividida sobre o apoio à idéia de serem retirados da área de risco, há quem pense que o grito foi dado em má hora. Muita reclamação, algumas vaias e até gritos de “Amazonino! Amazonino!” ecoaram pela Silves. Aproveitando a ocasião, o garoto Jonas (nome fictício) furou o bloqueio dos aspones que se amontoavam no palanque improvisado e fez um pedido ao governador: Seu Eduardo, eu queria um carro de brinquedo, igual àqueles da polícia, que antes eram de uma marca e que agora são de outra bem melhor. Eu sei que os novos são muito parecidos com os antigos (principalmente com aquela pintura toda pra disfarçar), mas eu quero mesmo é um dos novos. Sabe como é, qualquer coisa eu troco peças aqui na cidade mesmo... Mas eu quero o carro com os soldadinhos dentro, com aquelas armas pra fora, protegendo as pessoas que vão pro trabalho, nas esquinas da Rua Recife. E aí, Já é ou Já Era, tio?

Jonas levou um cascudo de Josué, um peteleco de Chico Preto e ainda um beliscão de Liberman Moreno.

quinta-feira, março 03, 2005

Caminho Nada Suave


Boa parte dos desgostos da minha vida adulta tem culpado, e não sou eu. Graças a Branca Lima, autora da cartilha do Caminho Suave, eu leio os noticiários hoje. Mas o garimpo de artigos daquela época em que até o arco-íris era em preto e branco não parou. Deu pra sentir o gosto, o cheiro. God Save the Google.

O Aquaplay, o Diplink, o Kichute, o Spectroman, o River Raid, a BMX, o Reebok, a MAD...

quarta-feira, março 02, 2005

E eram os deuses apenas Operações Ilegais

Eniac, o primeiro computador, cercando duas pessoas
O Computador

Máquina revolucionária, inventada para resolver todos os problemas que nós não tínhamos.

terça-feira, março 01, 2005

Minha primeira CNH, comadre!

O Jornal Nacional desta segunda-feira mostrou, finalmente, o que acontece nas auto-escolas que aplicam o teste de direção aos candidatos à Carteira de Habilitação (em São Paulo, Carta de Motorista). Mediante o pagamento de 330 reais, pode-se deixar o carro morrer, deixar de usar as setas e arranhar as marchas. Baliza? Pra quê, mané? A atendente de uma auto-escola diz à reportagem, sem saber, que há muita gente na listinha. O noticiário mostra o teste de direção, em que a candidata comete simplesmente todo tipo de infração de trânsito. Dias depois vai até a auto-escola e recebe, quentinha, sua mercadoria. A essa hora a listinha toda deve estar desfilando com seus Pálios de bunda amassada pelas faixas de alta velocidade, a 40 km/h.

Eu sou brasileiro. Eu desisto direto de acreditar nesse povo.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Sobre uma fruta de talento, indeed.

Minha amiga Dani, do Salada de Fruta, anda fazendo sucesso num dos sites (tá bom, blogs) mais queridos por este Malfazejo que vos fala. Pois não é que Dona Dani (com a permissão do Dona, Dani) enfeita o último post do Discoteca Básica, do dia 25 de fevereiro último?

Com o perdão pela piada, Dani. Foi irresistível.

Notas de segunda-feira

Uruaçu, em Goiás, movimenta sua pequena economia com o dinheiro, enviado da Espanha, por suas mulheres, que vão para a Europa se prostituir. Os pais sabem o que as filhas fazem. Os filhos sabem o que as mães fazem. Não são exatamente orgulhosos disso mas, como toda cidade tem suas Genis, Uruaçu prefere vender suas filhas a virar geléia.

Maradona esteve na Colômbia recentemente, no que seria uma fase de seu tratamento contra o vício em cocaína. Mais ou menos como se um pedófilo fosse se tratar no parquinho de uma escola primária.

Oscar 1 – Se você não entende nada de inglês, ano que vem procure acompanhar a cerimônia do Oscar sem tradutores. Qualquer coisa é mais compreensível do que ouvir o som original no mesmo volume das péssimas e gaguejadas traduções atuais.

Oscar 2 – A jequice caboclinha sempre fala mais alto, e Gisele Bündchen será, para nossas revistas e telejornais de primeira categoria, a grande estrela da festa do Oscar. Discordo do Lula, eu não acho que o brasileiro tenha baixa auto-estima. Acho que tem é exagerada estima pelos outros.

Francamente, eu não agüento mais ouvir falar nos assassinos de Dorothy Stang, no drama pessoal de Daniela Cicarelli e na briga de comadres entre Lula (e suas asneiras improvisadas) e FHC (e seu cocoricó falsamente despretensioso).

Severino Cavalcante é a estrela nacional do momento. E uma das que melhor representa o país e sua política. Burro, feio, preconceituoso, orgulhosamente ignorante e cara-de-pau. Uma amostra grátis do Brasil, que de gratuita nada tem.

Aconteceu num circo do Chile: o trapezista está sendo acusado de ter violado o palhaço.


Eu até gostaria de falar mais do cenário político local, mas só farei isso quando nosso vice-prefeito, Mário Frota, se recompor.


O Malfazejo deve ter seu visual reformulado nas próximas horas (ou dias). Portanto, como alguém muito atento já deve ter notado, as atualizações estão (e continuarão) meio minguadas. Comportamentos estranhos também deverão ser tolerados, ok? Ah, sim, aceito sugestões (e agradeço por elas) para a mudança. Um abraço a todos.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

O cafezinho, esse calhorda

O governo anunciou, hoje, um corte no orçamento de 2005 na ordem de 15 bilhões de reais. O corte foi justificado pelo Ministro Antônio Palofi Mafinha (tio em segundo grau de Felipe Mafa) como forma de evitar aumento de impostos. Serão cortados os gastos com viagens, energia elétrica e... o cafezinho. Taí uma das grandes perguntas universais nunca respondidas. Por que logo ele, sempre?!

O cafezinho é o mordomo corporativo. Mas acredito, humilde que sou, ter a solução para o problema: simples, primeiro elimina-se o cafezinho. Com a falta do 'rebite' parlamentar, nossos Severinos e Inocêncios sentem sono logo, vão pra casa e economizam energia. Simples. Só há um problema, aliás, dois: a energia elétrica das casas dos Inocêncios, a exemplo da água, deve ser paga por nós, do mesmo jeito. E a cada ida sonolenta pra casa lá se vai mais uma passagem.

Por nossa conta.

Eu precisava dizer isso?

Biografias que Hollywood nos deve

Jamie Foxx encarna Ray Charles. Pra isso emagreceu e usou óculos com tampões, pra "sentir" o que é ser cego. Val Kilmer emagreceu, engordou e cantou, ele mesmo, as músicas de Jim Morrison. Dennis Quaid teve intermináveis lições de piano e expressão corporal pra interpretar Jerry Lee Lewis. Agora há planos para se filmar a biografia de Bob Marley. Já rolam tapas (hum...) entre os agentes, mas poucos têm chances de conseguir o papel (hum...) e precisar fazer laboratório, mergulhar na cultura jamaicana, entrar no personagem, entende?

Lideram as apostas da imprensa especializada nomes como Giba, da seleção brasileira de vôlei, George W. Bush (e metade dos ex-presidentes americanos ainda vivos) e Marcelo Antony. Haverá mais alguém com as ferramentas necessárias para puxar (ôpa) uma responsabilidade dessas para si? Eu incluiria Luana Piovani e todas as outras top models do mundo, mas aceito sugestões.

Biografias que Hollywood nos deve é uma série, mas não é séria.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Santo Mau Humor!


O Arnaldo Branco, devidamente indicado aí ao lado, faz tirinhas semanais do Mundinho Animal, cartoons sobre... o mundo animal. Como se não bastassem todas as outras tiras do Mau Humor, vez ou outra sai uma dessas. O cara é genial.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Procurando disco-voadores no céu londrino...

Poucos seres são mais abomináveis e desprezíveis do que os exilados estudantis. Mas ainda piores do que os simples exilados são os exilados estudantis di mamãe. Animais horrorosos, estão sempre carregados de pontos de vista azedíssimos sobre os aspectos mais relevantes da vida social, como o jeito primata do brasileiro de usar a escada rolante em Londres. Com a indefectível amargura do europeu que nasceu num corpo de brasileiro, desejam a todo custo (até que saia a cirurgia de troca de nacionalidade), maquiar suas origens. Ao menor sinal de lembranças da terrinha, escondem seus passaportes. Na rede, é extremamente fácil reconhecê-los nos blogs, parados ao lado direito da vida, falando às paredes seu incansável discurso panfletário "Odeio Panfletistas!". Ligam pro Brasil (no horário mais econômico) de cabines telefônicas cravejadas com anúncios de prostitutas desdentadas (mas européias, ok?). Amam muito tudo aquilo, e disfarçam – muito mal - seus genes colonizados com um ar cosmopolita mais rampeiro do que o da a perua esquecidinha da novela das oito, falando de ópera e de alta moda. O grande jeca brasileiro na cidade grande não é o turista, o exilado comum, com seus gorros de frio e seus casacos de nylon. É o exilado da mama, que um dia vai voltar, e como todos, vai atender o celular e falar aos berros no restaurante, libertando, enfim, tudo de Brasil que não pôde tirar do armário por lá. São esses, os quietinhos, caladinhos e tímidos d’além mar, que voltam com aquele ar de "mas que lixo de terra!". Aí, ironia das ironias, vêm ser considerados jecas logo aqui, no Bananão, a Meca da jequice.

Baseado no post "O jeca na cidade grande" (do blógico, lógico), transcrito aqui:

"Poucos seres são mais abomináveis e desprezíveis que turistas. Mas ainda piores do que os simples turistas, são os turistas brasileiros. Animais horrorosos, de aspecto repulsivo, estão sempre carregados de sacolas, e falando aos berros. Ao menor sinal de frio vestem gorros, luvas e casacos de nylon gigantescos como se estivessem indo esquiar. Em Londres, pode-se reconhecê-los facilmente nos metrôs da cidade, parados no lado esquerdo das escadas rolantes, para desespero dos que vêm atrás deles e têm mais o que fazer. (aliás, como já perguntou o Seinfeld uma vez, que tipo de pessoa sobe numa escada rolante e fica ali parada? "It's not a ride, people!")"

Na dúvida, atire entre os olhos


O Parlamento Alemão em chamas, em 1933

Não sei se você é politicamente destro ou canhoto. Mas se não gostou do que viu, multiplique por -1. É assim que fazem os Direitas e os Esquerdas.

Saiba mais.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Montagem, do paraíso

O radinho grunhiu, rouco, o noticiário da Rádio Difusora. Músculos ainda frios mexeram-se, corpos cansados, quase inertes. Jackson arrastou as sandálias pelo chão sujo de terra, acordando Lupi debaixo do assoalho da casa suspensa. Funcionários da obra ao lado chegavam em grupos silenciosos de 3 ou 4. Encheu rapidamente o bule e os baldes que lhe banhariam à noite, quando chegasse. No ônibus da empresa, tentava dormir enquanto o mesmo noticiário ainda desfilava os boletins dos pronto-socorros. Meninas barrigudas liam os próximos capítulos das novelas nas revistas de 1,99. Meninos dormiam, com fones nos ouvidos e fardas no colo, aguardando a sirene que os levaria ao pastel folhado do café.

Não tinha um filho que pudesse beijar como se fosse o único. Havia meses não namorava, não podia também amar como se fosse a última vez. O que podia era limpar os dentes com a língua, tirar a gordura dos lábios e pôr o protetor auricular. Fingiu alongar-se na ginástica de zumbis infelizes e tomou seu posto. Montava DVDs como se fosse máquina, circuito com circuito num desenho lógico. Pensava enquanto encaixava pecinhas, e gostava daquele trabalho por isso. Pensava em sua vida, sem ninguém, sem nada, só Lupi, seu rádio fabricado pela concorrência e seu quarto úmido. Comeu feijão e arroz como se fosse príncipe e sentou pra descansar como se fosse sábado. Seus olhos, ainda embotados de sílica e lágrimas, se fecharam naquele mar de corpos do pátio.

Ali, enquanto agonizava no passeio público, Jackson esperava por uma redenção que não viria, isso sabia. Via, resignado, sua condição. Não sairia dali. E não amaria pela última vez. E não beijaria o filho pródigo. Aproveitava os últimos minutos da agonia diária daquele pátio, esperando pela próxima sirene. Até que Lupi e a Rádio Difusora lhe acolhessem em casa, com um balde de água fria no banheiro. Até que, no dia seguinte, pudesse comer feijão e arroz como se fosse príncipe. Até que um dia – sonhava – pudesse flutuar no ar como se fosse pássaro. Até que morresse na contra-mão, atrapalhando o tráfego, num desespero que não sabia sentir.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Notas de segunda-feira

Drogas 1 - Bill Clinton admitiu ter fumado um cigarrinho de maconha na juventude. Chocada, a nação americana só sossegou quando o presidente disse que não tragara a fumaçinha do diabo. Foi um alívio. Agora, quem diria, surge uma gravação em que Ele admite ter fumado maconha. E tragado, claro, entre tragadas de Jack Daniel's. Talvez agora seus eleitores queiram derrubá-lo do cargo. Agora sim, Ele foi longe demais.

Drogas 2 - Nem bem saiu do coma, Marcos Menna já soube que está sendo processado por apologia às drogas. Tudo porque disse num show que as melhores coisas da vida são sexo, drogas e rock 'n' roll. Seu empresário, Zé Henrique (aquele que fazia versões do Def Leppard na banda Yahoo), diz que foi tudo um mal entendido. Marcos Menna se referia às músicas de sua banda, gente.

Drogas 3 - Alexandre Pires, que já se emocionara ao conhecer Bush, emocionou-se ao receber dois importantíssimos prêmios do grande Festival Internacional de Música de Viña del Mar, no Chile. Suas músicas "Vamos tirar a Roupa" e "Você levou minha Vida" são sucesso absoluto no Chile. Oremos para que esse sucesso chileno continue para sempre, irmãos.

Hugo Chávez diz que os Estados Unidos têm planos para assassiná-lo. A mudar pouca coisa no cenário da idiotia política da América Latrina, já temos um fortíssimo candidato ao posto de sucessor de Fidel Castro.

Até jecas latino-saxões de um assunto só têm seus lapsos momentâneos de razão. Prova de que mesmo no deserto brotam certas flores, ainda que raramente. Por isso eu cito a citação: "Eu até gosto de Jesus, sabia? É pelo fã-clube dele que eu não sou muito apaixonado..."

A câmara tem mais dinheiro do que 8 estados da federeação. O fato deveria ser tido como o Crime Perfeito, que muitos dizem ser impossível. Rouba-se bilhões do povo, com base na Lei, e a vítima nada pode fazer.

O Vietnã produzirá até o final do ano uma vacina contra a gripe das aves. Descobriu-se que cada galinha vietnamita passa nada menos que 33 dias por ano em casa, com febre alta, dores no corpo e muita coriza. Como se não bastasse, alguns galos já aproveitavam a onda de gripe e vendiam atestados "batizados" às galinhas mais vagabundinhas.

A morte da freira americana em Anapu chocou o país. 2.000 soldados foram deslocados para levar ordem ao Pará. Taí um tapa na cara daqueles que dizem que as forças armadas brasileiras não têm a menor utilidade. Tem cena mais bela do que 2.000 soldados aterrissando, de cara pintada nos aviões Hércules, para defender (um pouco tarde) indefesas freirinhas da terceira idade?

Álvaro Garnero, João Paulo Diniz e Ronaldo têm a minha inveja declarada. Não pelas putinhas de boa família que os rodeiam, mas pela diversão que têm. Eles se juntam, fazem uma vaquinha de alguns milhões e bancam bolsas, carros, apartamentos e jóias para suas respectivas namoradas. Depois dão em cima da namorada do comparsa. Só pela diversão sádica de ver as cortesãs mais lindas do mundo brigando por causa deles. Todos ganham: elas o dinheiro que adoram, eles, a diversão que só o dinheiro e a beleza trazem.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

O Brilho Eterno


Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Pink e Rach, vocês estavam certos. A sensação de ter visto algo ali, naquele casaco laranja e naquele banho de chuva, que não se consegue descrever é angustiante. Eu havia esquecido, mas Charlie Kaufman e Michel Gondry me fizeram lembrar: não é necessário emburrecer pra fazer um filme de amor. E é nos detalhes que está um filmaço.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Citações de Célebros Célebres

"Não sou candidato em 2006, a não ser que o cenário seja de crise absoluta."

Fernando Henrique Cardoso, essa semana.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Não é Nova, Boa nem Redonda. É Devassa!


Surge no Rio uma cerveja artesanal, elogiadíssima pelos especialistas (a responsável pela produção é a Doutora em Cerveja Kátia Jorge (sim, Doutora em Cerveja)) e admirada pelos fregueses cariocas, o povo que mais bebe no país (90,4 litros por ano, em média), comparado à media nacional de 47,6 litros. A cerveja Devassa já está em 140 pontos da cidade, já é exportada para a Europa e já precisa ter sua produção elevada. Seus criadores, Marcelo do Rio e Marcello Macedo, já planejam engarrafar também três tipos de cachaça, já devidamente batizadas de Vagaba, Rampeira e Vagaba Coroa. Também pretendem lançar um refrigerante, de fórmula secreta. Ah, o nome também é secreto, mas arrisco um palpite: como refrigerante é algo meio infanto-juvenil, deve ser Cafetinho, Flanelinha, Trombadinha ou simplesmente Deputadinho.

A matéria é da última Veja Rio.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

O Antiácido do Cotidiano

Daniel Piza me impressiona, não pela audácia, pelo cinismo, pela acidez ou pelo carisma. É exatamente pelo contrário. A cada coluna sua meço a distância entre dizer o interessante e dizer o importante. Daniel Piza não tem estilo, não faz pose. Mete um ponto final (ao menos pra mim) na coluna O eclipse dos intelectuais, no Estadão deste domingo, 13. O leio e sei que é mais fácil ter posições fortes corajosas sobre assuntos que não conhecemos do que sentar, ler e pensar bem. Acho que o Daniel não consegue finalizar uma frase sequer nos aniversários e nos saraus que freqüenta. Racionaliza demais, e vivemos tempos em que ponderar é pecado. Deve ouvir muito, ao final de suas opiniões, perguntas como "Ué, cadê sua frase de efeito?!". Sabemos, eu e você, que a estupidez dita com rapidez e firmeza impressiona mais do que uma gaguejadinha, uma pensada rápida. Daniel Piza prova com suas análises acuradas que a vaidade é apenas o maior dos sintomas da burrice.

Leia o também excelente Os sete tropeços dos comentaristas e me diga se não é verdade.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Notas de segunda-feira

Diante do aumento de acusações de abuso sexual das tropas de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Congo, Kofi Annan proibiu, em carta, que os membros das forças de paz estuprem, obriguem alguém a se prostituir ou mantenham relações sexuais com meninas menores de 18 anos. Ah, sim.

Príncipe Charles vai se casar de novo. Não vou fazer piada com o novo título de Camila Parker, a noiva. Aliás, vou defendê-los. O povo não gosta de final feliz, em que o Amor prevalece? Então. Desarmem-se, carolas rancorosas. O príncipe Charles é a nossa versão masculina dos contos de fada. Vai finalmente ficar com quem ama.

O PT fez 25 anos de fundação na última quinta, 10. Seus maiores expoentes reuniram-se e brindaram. Em mais uma demonstração de unidade e consenso, a festa terminou na polícia e no IML, com muita gente envenenada e ferida.

As lideranças indígenas do Amazonas querem todos os cargos na organização da FUNAI, a Fundação de Assistência ao Índio. A civilização urbana está ultrajada com a petulância dos arigós. Onde já se viu? Daqui a pouco os jurunas vão querer direitos iguais aos dos brancos, como 40% dos salários dos funcionários subordinados, verba para diárias secas em viagens de mentirinha e auxílio moradia. Assim não pode, assim não dá.

Pesquisadores israelenses inventaram um software que mede a beleza feminina. Daí nasceu, entre os judeus, a expressão “mulher-bomba”, antes ignorada pelo grande público. O conceito – mais antigo – de “homem-bomba” ainda precisa ser bastante estudado, pois é praticamente impossível identificar um espécime, dadas as mutações que a espécie é capaz de sofrer. Um “homem-bomba”, por exemplo, que chegue nas boates com um chaveirinho da Audi ou um terno italiano facilmente confundiria o programa feito para as mulheres.

Harrison Ford vai interpretar um bravo herói de guerra no cinema. O herói presenteado com tal comenda será James Mattis, general dos marines americanos que nas horas vagas conversa com os jornalistas e diz ter sido "muito divertido matar pessoas" no Afeganistão e no Iraque.

Um garoto chinês de 11 anos, de Xingzheng, província de Henan, processou a mãe porque ela lhe prometera comprar um PC, caso ele tivesse um aproveitamento escolar acima de 95 por cento. Ele fez 97%, mas a mãe descumpriu o acordo. Menino de ouro, esse.

Morreu o dramaturgo americano Arthur Miller. Fez obras-primas como Morte de Um Caixeiro Viajante e As Bruxas de Salém. Mas venerado mesmo era por ter passado cinco anos dormindo com Marilyn Monroe.

Ray Charles é o maior vencedor do Grammy de ontem à noite. As grandes gravadoras já estudam incluir em seus contratos uma cláusula que estabelece a morte de seus clientes. Funciona assim: o astro decadente procura a empresa, e esta lhe sugere morrer, num acidente de carro ou de avião, e lhe garante, com isso, sucesso total. As gravadoras mantêm uma equipe de especialistas em mortes acidentais voltada pra isso. Britney Spears, Bon Jovi e a banda Oasis estudam propostas e, se toparem, logo serão celebrados postumamente como gênios da música.

A cidade alemã de Dresden, uma jóia da arquitetura barroca, foi completamente destruída por 14 horas de bombardeio americano e britânico (Oh!) no dia 13 de fevereiro de 1945. 35 mil pessoas – todas civis – foram incineradas. A cidade foi escolhida, como Hiroshima e Nagasaki, para servir de humilhação final aos inimigos. Ontem foram lembrados os 60 anos do evento. A polícia foi acionada para conter protestos que cobravam a punição pelo que teria sido um crime de guerra. Que absurdo!

O autor dO Malfazejo pede desculpas pela escassez de tempo, que o obriga a manter o formato das segundas-feiras em notas. Há textos no forno que logo sairão, provavelmente ainda esta semana. Ah, e obrigado pelas visitas. Espero ter suprido a necessidade de informações imprecisas, tendenciosas e fantasiosas que todos nós temos.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

A beleza da tristeza, ou vice-versa

Arkko Data/Reuters

Há certo consenso no fato dos dramas serem considerados os melhores, pois incomodam mais a sensibilidade de quem os assiste. Até onde minha vaga cinefilia me leva, não lembro de uma comédia sequer cotada ao Oscar. Jim Carrey precisou fazer chorar pra poder cogitar ter chances, e Maryl Streep é uma espécie de Mensageira das Lágrimas, fartamente premiada pela crítica e pela emocionada audiência. Arko Datta, o indiano que fez a foto acima, foi premiado com o World Press Photo of the Year de 2004, o mais importante prêmio do fotojornalismo mundial. A foto premiada é, como os aleijados e retardados de Hollywood, extremamente triste, e por isso mesmo linda. Mostra o luto de uma mulher indiana por um parente morto pelo Tsunami, dois dias antes. A foto concorreu com outras 69.000 fotos. Como naquele disco da Beth Gibbons, nem sempre a beleza está na tristeza, mas as chances disso ocorrer são bem grandes. Uma rápida olhada nalgumas das fotos vencedoras do prêmio Pulitzer confirma: é a tragédia o que nos emociona.

Flanders Rules!


Imagine você a final do Brasileirão: durante o primeiro tempo, palmeirenses e sãopaulinos trocam carrinhos, cotoveladas e cuspidas. Cartões amarelos às cuias, briga entre torcidas organizadas, muita tensão e muito policiamento. O juiz apita o fim da primeira metade do jogo, e então... um enorme palco é montado no centro do Pacaembu, enquanto animadoras de torcida (aquelas cheerleaders à americana) chacoalham seus pompons, esfuziantes. Quando começa o show do half-time, trechos da Paixão de Cristo são encenados, junto à recriação de Caim e Abel e do Grande Dilúvio. No palco, um bispo católico, devoto, ortodoxo, comanda uma pregação inflamada sobre os valores morais ensinados pela Bíblia Sagrada, enquanto motoboys da Mancha Verde abraçam, envergonhados, auxiliares de pedreiro da Gaviões da Fiel...

Improvável? No Brasil, talvez. Mas Ned Flanders, tradicional coadjuvante do seriado Os Simpsons, está na crista da onda desde que os defensores dos seus valores passaram a ocupar cargos poderosos da nação americana. Al Jean, produtor executivo do seriado, afirma que a linha dos criadores sempre foi satirizar quem está no poder, e agora a turma de Flanders é quem manda. Numa insuspeita união de forças, Flanders e Homer organizam, juntos, o show do intervalo do Superbowl. Cansado de ver a sujeira dominar o mundo da tevê de sua nação, Flanders decide agir. E é aí, já nessa atitude de ter atitude, que começa a sátira.

Ao revelar que tinha 60 anos de idade, Ned atribuiu sua aparência jovem à vida regrada, à mastigação pausada e às doses diárias da “vitamina Igreja”. Flanders parece ter decidido entrar no showbiz depois de assistir, estarrecido, Janet Jackson exibir o seio em pleno intervalo do Superbowl. O artigo da Associated Press chama a atenção do leitor para a ascenção divina de Ned. O jornalista Kent Brockman diz que os telespectadores americanos estão hoje irritados com os shows de intervalo, regados a religião e decência.

Não é verdade. Talvez poucos americanos hoje admitam, mas são – mesmo que satiricamente - genuinamente representados pelos Neds Flanders da vida real. Ou farão os críticos da Doutrina Bush como tantos paulistanos, por exemplo, que atribuem vitórias de políticos notoriamente corruptos aos migrantes nordestinos?

O artigo termina perguntando o que será dos cidadãos americanos que diferem do ponto de vista daqueles que governam o país. Graças aos Simpsons – e a Deus, claro! – pelo menos por enquanto resta rir.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Notas de uma segunda-feira gorda

BBB – Estrategistas são maldosos, falsos, não merecem o prêmio. Fossem as demissões de O Aprendiz decididas da mesma forma (o voto popular), o próximo grande executivo da Av. Paulista seria um motoboy mulherengo, que vende disco falso pra sobreviver e dá palestras ensinando como ser um camelô de sucesso. O Brasil tem orgulho de ser pobre.

Um policial sueco assaltou um banco e voltou, uma hora depois, para investigar o crime. Foi denunciado por seus colegas, que desconfiaram da compra de um carro de 31.000 reais. Confessou o crime e virou celebridade. Não pela cara-de-pau, mas pela burrice. Onde já se viu um policial andando de carrão por aí? Onde?!

O número de desempregados na Alemanha passou de cinco milhões no mês de janeiro, atingindo o pior nível desde 1933. Estão prontinhos para serem arrebatados pelo primeiro nacionalista inspirado que surgir evocando o grande valor da nação. Já aconteceu lá em 33. Que o mundo fique de olho.


Uma australiana foi pega vendendo, num site de leilões, caixas de cerveja Duff. A cerveja existe somente no seriado Os Simpsons. Justificou dizendo que precisava de dinheiro para comprar presentes de Natal para seus quatro filhos, Bart, Lisa, Maggie e Milhause. Foi condenada a fazer terapia. Seus compradores, a desligar a tevê.


O soldado americano capturado por terroristas iraquianos pode ser um boneco de brinquedo. O Pentágono informou que nenhum de seus bonecos de serviço no país sumiu dos estoques da guerra. Estão todos vivos e bem, com saudades de casa e da manteiga de amendoim do café da manhã.

A prestigiada imprensa britânica acusou Tony Blair de não ter condições de se concentrar nem de ter capacidade de liderança. Tudo porque encontrou no chão, após uma reunião no Fórum de Davos, um bilhete com rabiscos confusos e idiotas. Dias depois foi revelado que o autor do bilhete era Bill Gates, que sentara ao lado de Blair na reunião. O bilhete foi imediatamente levado a leilão e arrematado por Steve Jobs.

7.700 candidatos concorreram às eleições iraquianas. A imensa maioria sequer divulgou seu nome ou fez campanha, com medo de morrer. Os xiitas vencerão por W.O. pois os sunitas não puderam votar. Por isso já prometeram 'se vingar' da injustiça. As eleições à americana fazem escola.

O Carnaval continua. Ic!, expero que todox extejam ze diverdindo, ic!, borquê eu ajo que todox nózz merecemozz, ic!, e vozês sabeeeem que eu conzidero vozês bagaráio, né, ic! Não?! Barabénz ba vozê, minha ezgola guerida, muitas velizidades, muitos ic! anos de vida, 31 anos na memória, e O Malfazejo fazeno barte deza história...

What Else To Say?...


Prophet. Soul rebel. Rastaman. Herbsman. Wildman. A natural, mystic man. Lady's man. Island man. Family man. Rita's man. Soccer man. Showman. Shaman. Human. Jamaican!

(Bono Vox, sobre Bob Marley, em discurso, 1994)

As notas de segunda-feira estão saindo.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Minha porção Cameron Crowe

Carlos André fora um garoto tímido. Na década de 80 envelheceu dos 10 aos 18, e viu muita coisa. Apenas viu. Claro, não era inferior ao Kiko, xará seu. Mas Carlos era tímido, e se alguma época foi especialmente mortal para os meninos tímidos, foi aquela, os 80.

Kiko falava engraçado, e Carlos, inconscientemente, o imitava. Kiko sempre tivera tudo, e Carlos, cruel como só as crianças podem ser, já obrigara a mãe, funcionária pública e leoa nas horas vagas, a comprar desde Reeboks importados até bicicletas de alumínio, tudo pra fazer parte da roda do Kiko. Mas não dava. Kiko já dirigia desde os 10 o carro da mãe, um Monza Classic, e o carrão do pai, um Escort XR3 com guidão acolchoado e faróis de neblina. Um espetáculo. Carlos já tentara roubar o Chevette hatch do namorado da mãe, mas o motor a álcool do carro frio o deixara na mesma situação da moça de Desejo de Matar 3, cercada por malfazejos num estacionamento subterrâneo vazio, sem nenhum Paul Kersey para ajudar.

As festas, sempre na casa do Kiko, eram as melhores, e passaram rapidamente dos campeonatos de River Raid no Atari às festinhas na garagem, iluminada com luz negra e lâmpadas estroboscópicas. Naquelas festas não podiam entrar o Somewhere in Time, do Iron Maiden, nem qualquer coisa de Marillion, que eram coisas de macho. “Silvia” (piranha!), do Camisa de Vênus até rolava, mas no final. Era tempo de Rádio Pirata, e as meninas sonhavam ser escolhidas pelo Kiko para dançar London, London. Via-se muito Footloose, mas ninguém queria ser Kevin Bacon. Sentados em cadeiras de abrir, encostadas nas paredes da garagem, os meninos escolhiam as meninas. Os beijos eram todos belos, românticos, e Carlos apenas assistia, pensando na Daniela, sua vizinha, e na Luciana Vendramini, que dava a Paulo Ricardo aquela aura de divindade, “O Cara”.

Carlos era apaixonado por Daniela, que não era a menina mais popular ou cobiçada do bairro, o que destoa do clichê dessas histórias. Seu amor não era puro, poético. Era físico mesmo. Ele dormia e acordava pensando nas pernas dela, sempre à mostra nos shorts. Já àquela altura, lembrando daquilo tudo tantos anos depois, era capaz de lembrar o perfume dela.

Agora Carlos era casado, e outras paixões e amores já havia vivido. Daniela também era casada, morava numa casa grande com o marido e três filhos. Nunca mais se viram. Ele lembrava também do Kiko e suas camisetas Cristal Graffiti e Píer, as mochilas Quebra-Mar e daquele disco do Ultraje a Rigor, cujo logotipo tremia na capa do vinil. Abriu a porta do guarda-roupa e viu, empilhados, o mesmo RPM, The Smiths, New Model Army e até um Ritchie, que ouvia escondido, entre um Exploited e um AC/DC. Encontrou fitas cassete do Léo Jaime e, puta merda, a trilha de Karate Kid, com, puta merda, Peter Cetera. Lembrou de quase tudo, desde Flashdance, passando pela Faces, onde nunca estivera por não saber dançar nem paquerar, chegando até os filmes pornô que a galera assistia quando os pais de alguém viajavam. Lembrou de tudo com a nitidez que um perfume, uma música ou um lugar trazem. Lembrou que não mudara muito, que ainda era tímido, anticarismático. Lembrou da Daniela e de todas as outras paixões, fortes e duradouras como um tornado. Ainda não sabia chamar a atenção, só conseguia guardar, na lembrança daquele All-Star (o Converse!) e daquelas fitas TDK empoeiradas, as imagens da melhor e pior época de sua vida. Sorriu, percebendo o clichê que ele era: o garoto ruim de papo e bom de redação, observador e solitário, lembrando o que vira, e não o que vivera.

Salvou o texto e pegou as chaves do carro.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Um grande clássico, sempre perto de você


Malabarista contratado para fazer a foto de divulgação

A estréia do novo uniforme do Flamengo, cheia de pompa e pirotecnia, está marcada para o próximo grande clássico do time da Gávea, contra o São Raimundo, de Manaus. Os especialistas da ESPN não arriscam um palpite, mas admitem que o time rubro-negro tem leve vantagem. Evitando falar em favoritismo, os craques flamenguistas dizem "ehh... a gente vai procurar respeitar o adversário e dar o melhor de si para jogar bem e sair daqui com os três pontos".

terça-feira, fevereiro 01, 2005

A Ancinav faz escola


Os animadores de torcida brasileiros do Reverendo George, fazendo pose

A sede da Igreja Batista Metodista Americana, na Avenida Pennsylvania, 1600, em Washington D.C., decidiu gastar 130 milhões de dólares num projeto que institui Aulas de Abstinência nas escolas americanas, onde as crianças são apresentadas ao moderno e revolucionário método contraceptivo cristão: não trepar. O alerta soou quando o Reverendo foi surpreendido no Oval Office com o dado de que irônicos 23% das meninas texanas com 13 anos de idade já havia dado sua florzinha para algum zagueiro da escola, apesar da tradicional e fanta criação religiosa americana.

Depois do maçiço investimento da Igreja, o porcentual de sorridentes meninas iniciadas já era de 29%. Já os meninos de 13 anos praticantes da fornicação infantil, que antes eram 24%, agora são 39%. Perguntada sobre o que poderia ter causado a desobediência à Igreja e a Deus, Pamela Sparxx Taylor Saint Lords, 13, respondeu com a pureza desconcertante que só as crianças têm: "Um charme essa sua gravata, sabia, tio?"

Mas nem tudo está perdido. Um estudo de dois anos revela que a maioria dos jovens americanos acha que a Terra dos Livres tem liberdades demais, apóia a censura e a aprovação prévia de notícias pelo governo americano.

Que os Rafaéis, Jorges, Diogos, Isaques e Jacós do terceiro mundo durmam com um barulho desses. Defendem (meio malandramente, é verdade) ideais de liberdade e democracia que seus próprios ídolos, os americanos, já sinalizam desprezar. Teimam em admirar rastros de luz de uma estrela que cada vez mais parece ter morrido. A ignara massa petista, por exemplo, ao menos se desfilia, toda idealista (e boba, portanto), do partido. Já a ignara massa de fiéis brasileiros do Reverendo George e de seus diáconos vem ainda mais atrás, defendendo, cínica e deslumbradamente, coisas que não existem mais.

Eu finalmente encontrei entre os brasileiros algo mais medíocre do que um esquerdista militante comum. Encontrei esquerdistas militantes de direita.

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Notas de segunda-feira, 2

Hugo Chávez falou por 90 minutos contra a globalização, os EUA e o neoliberalismo. Foi ovacionado pela maioria das 12 mil pessoas que lotavam o ginásio Gigantinho, em Porto Alegre.

Sinceramente, você leva a sério um país que ovaciona Hugo Chávez e batiza um ginásio (aliás, qualquer coisa) de Gigantinho?

Mais de 60% dos iraquianos, que odeiam a democracia, foram às urnas, entre morteiros, homens-bomba e caminhões-bomba. O índice é superior à média histórica de comparecimento dos americanos, que amam a democracia, às suas próprias eleições. Interessante.

Aquela moça, daquela dupla jovem de irmãos-cantores, não pode ficar a sós com o namorado. Não se beijam, nem de selinho, na presença dos pais dela, por respeito. Quer saber? Eu defendo a idéia de transmitir em cadeia nacional – igual ao nascimento daquela outra – o abate e a morte de tão comentado, cobiçado e protegido hímen. Quem sabe um reality show, mostrando as últimas horas de vida da membrana mais badalada do país. Seus temores, seus medos, suas angústias e suas alegrias. A tela dividida; de um lado o casal protagonista; do outro, os pais da moça, aflitos, o pai apoiando a cabeça da mãe, aos prantos, no peito, todo protetor. Aquele piano triste ao fundo, dando o clima, causando suspiros na audiência. Quem viu O Show de Truman consegue imaginar. A imagem corta para os pais dele, torcendo, fazendo figa... O Brasil merece.

Michael Jackson morreu. Quem está sendo julgado nesse exato momento em Santa Bárbara é aquela menininha insuportável do seriado Taken, abduzida e encarnada no corpo de um alienígena humanóide que não engana mais ninguém com aqueles olhos, aquele queixo e aquele nariz postiço.

Eu não entendo essas discussões blogueiras sobre o que é esquerda e direita. O poder não tem esquerda ou direita, minha gente. Tem ‘dentro’ e ‘fora’. Olhe pra eles: quem estiver em silêncio está dentro. Quem estiver esperneando está fora. Ponto.

João Coutinho quer ter filhos aos 80. Leia o porquê, divirta-se e – quem sabe – programe-se.

Os americanos produziram O Filho de Chucky. O filme dispensa comentários (e olha que eu nem assisti), mas pelo menos foi feito com dinheiro privado.

Os ingressos para os desfiles em São Paulo estão quase esgotados. É, o samba era figura querida por lá. O velório está mais disputado a cada ano.

E eu soube que tem samba-enredo em Manaus cujo tema é o Amazonas Shopping. Eu paro por aqui, me tira o tubo.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Toda honestidade será castigada


Maradona faz gol com a mão esquerda, em 86, contra a Inglaterra.


Os argentinos são daqueles raríssimos casos em que todo o preconceito se justifica.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Notas de segunda-feira

O único erro do Príncipe Harry, além de ter nascido mais feio e mais tarde do que William, foi achar que é normal. Um príncipe não pode fazer esse tipo de coisa. Mas vá dormir, almoçar e jantar com aquela família feia e insossa durante tantos anos, enquanto seus amigos plebeus estão nas festas a fantasia, bebendo e usando máscaras de Osama Bin Laden à vontade. Aí você vai entender.

Aliás, Harry poderia tomar umas aulas de bom gosto com Kent Brownridge, executivo da revista US Weekly, que disse que a separação de Brad Pitt e Jennifer Aniston, essa sim, foi o tsunami pra ele - e para todos os que trabalham com o que ele trabalha. Nas palavras dele, que não é príncipe, "não há nada maior do que isso". Lindo.

Johnny Carson, o rei dos talk-shows, morreu. Deixa em luto dois filhos, David Letterman e Jay Leno, uma penca de netos do quilate de Jô Soares espalhados pelo mundo e gerações inteiras de donas de casa e pastores presbiterianos, para quem aquele "this is wild, wild stuff!" era o tão cool.

Os índios conseguiram mudar o comando da Funai, a Fundação Nacional do Índio. Bastou melarem umas flechas com veneno paralisante, pra que finalmente suas reclamações fossem ouvidas. É o recado do nosso Estado de Direito, mais uma vez: Se você quer que algo aconteça, não tente pelas vias legais, porque não vai conseguir.

Alexandre, o maior general de todos os tempos, era bissexual. E ainda hoje as forças armadas teimam em não dar chance para os bichas - pelo menos os assumidos. Podem estar desperdiçando futuros ícones militares, que daqui a milênios seriam admirados por todos os generais machões e homófobos do mundo.

Fernanda Borges venceu o concurso de misses negras. É o mesmo que os concursos que misturam misses brancas, morenas, loiras, ruivas e orientais, só que esse é só pra negras, entendeu? É que a raça negra sofre muito preconceito...

Descobriram que o Pentágono mantém equipes clandestinas de agentes em outros países, sem o consentimento de seus governos e de suas leis. O mundo está estarrecido, pasmo, chocado.

Os indonésios e malaios estão sobrevivendo da morte. Vendem CDs com imagens e vídeos das ondas gigantes, com direito a corpos amontoados, imagens de crianças sendo arrastadas e tudo o mais. Felizmente (pra eles) é nessas horas que a natureza humana e sua curiosidade macabra dão frutos.

Coisas que não mudam nas festas de formatura: o penteado com cachinhos angelicais, muito u-hú! durante a colação, gente cafona, música do Vangelis, filé ao molho madeira, elegância às 8:00 e deselegância às 2:00, gente que não bebe tomando uísque porque é de graça, convidados VIP fumando em local proibido (e o resto olhando), "She", de Charles Aznavour, "Requebra", de Xandy e "Festa no Apê", de Latino, na mesma festa, gravata na testa, "Esse ano, quero paz no meu coração...", trenzinho e "tira o pé do chão!" na pista de dança, etc.

Dodora, Maria, minha irmã: Meus parabéns pela conquista, que sei quanto você buscou. Que você seja uma das gotas de paixão, decência e ética nesse imenso, revolto e incompreendido mar do Direito. E que ajude, acima de tudo, a justiça a ser feita.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

A gente somos inútil


Aquele presidente, daquele país alegre que fica naquele continente caliente, media as negociações diplomáticas entre dois respeitadíssimos vizinhos. Tudo porque o governo de um prendeu o líder da maior organização criminosa do outro. Sem avisar, sem pedir permissão, sem nada. O presidente deste outro país arrumou a boina, lustrou as botas e gritou, como bom representante daquele continente nada sério, palavras de ordem em nome da soberania e da auto-estima nacional.

Bem, naquele pobre continente só há líderes machos, os únicos do mundo capazes de peitar aquele país imperialista, fichando por birra nacionalista, calotando dívidas, expulsando jornalistas, atacando a globalização, a língua imperialista e a Lei da Gravidade, inventada por algum saxão mal-intencionado. Well, os dois países entraram em crise, apontando suas armas enferrujadas e seu discurso medieval para o outro lado. Mas, no meio de tamanha crise, eis que ele surge, onipresente e impávido, sempre com um sorriso simpático e uma metáfora salomônica na ponta da língua. Seu ministro das relações exteriores já informa que está todo bien. O perigo de uma hecatombe nuclear, protagonizada por caças F-5 (imperialistas) com prazo de validade expirado e estalinhos de fabricação comunista, acabou. Generais com câncer de próstata e soldadinhos de chumbo bem treinados nas técnicas militares de pintura de meio-fio podem voltar pra fila do pão em paz.

As próximas missões? Continuar resistindo aos ataques imperialistas, claro. A sempre iminente invasão imperialista continua, e eles precisam manter as armas lustradas, a farda engomada, o senso de ridículo intacto e a vergonha na cara bem longe. A fórmula de sucesso da hombridade dá certo, por supuesto!

O mau-gosto não conhece limites abaixo da linha do Equador.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Mad Mice

Pesquisadores da Universidade da Califórnia acreditam ter descoberto uma droga eficaz contra o alcoolismo. O problema é que é droga mesmo, muito popular na América dos anos 60. A ibogaína, cujo princípio ativo é o alcalóide iboga, é encontrada nas folhas, caules e raízes de um arbusto africano chamado de Tabernanthe iboga. Para chegar às aterradoras conclusões, os cientistas contaram ao prestigiado Journal of Neuroscience que literalmente encheram o boga de alguns ratinhos de cachaça, pra amaciá-los. A seguir, eles aplicaram iboga nos Mickeyzinhos ao som de Dick Dale e Rick Wakeman. Por fim, os privaram do durante duas intermináveis, infernais e dolorosas semanas. A conclusão foi a de que, drogados, os lombradinhos tinham horror a álcool, não bebiam.

Os malfazejos cientistas ainda procuram um tratamento que traga os mesmos benefícios da ibogaína, mas sem seus efeitos colaterais, alucinógenos e estimulantes (nham, nham), proibidos no mundo inteiro, exceto no Caribe (ah!) e no México (uh!), onde o uso do iboga ainda é liberado em algumas seletíssimas clínicas de desintoxicação.

A insignificante comunidade alcoólica americana lotou as ruas, em protesto contra o uso dos indefesos ratos nos testes; já não tolerava mais imaginar aquelas criaturinhas, frágeis e sortudas, sendo levadas aos limites da percepção - e às vezes até à morte -, num turbilhão de luzes, magia, prazer e delícias sensoriais jamais provadas por um humano com mais de 60. Pura inveja humana. Nos protestos em frente à Universidade, o cartaz mais reluzente vinha em inglês mal redigido (aqui traduzido para que nossos diplomatas entendam): "Eu não quero saber quem morreu, eu quero é chorar!"

Los macaquitos fueron dopados

Lembra do Caniggia marcando o gol da vitória argentina, em 1990, eliminando o Brasil da Copa da Itália? Pois leia isso.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Pra dar ânimo à segunda-feira

A pindaíba janeireira faz mais vítimas do que catástrofes naturais, e tem gente vendendo o almoço pra poder jantar. Mas eis que no Nada, do mais puro Nada, eu vi uma luz no fim do túnel. E vi que preciso, realmente, agradecer a Deus. Confira.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Sandrínia (fale com sotaque paraense)


Sandra
Cristina
Tavares
de Campos
do Amaral
Machado.

O nome dela eu prefiro dividir, pra não cansar o leitor, mas acredite, ela tem um coração maior ainda. Faz aniversário hoje, e por mais que provavelmente esteja em abstinência etílica, merece uns gorós nessa sexta-feira.

A Sandrinha é, pra mim, o privilégio da amizade incondicional. É melhor do que todos nós, simplesmente porque sim, porque é, no melhor dos sentidos, superior. Quer testar? Enumere as qualidades citadas em todos os cartõezinhos divididos entre amigos, e ela as terá. Chore, e ela surgirá numa cortina de fumaça, feito ninja, com o ombro já a postos. Se machuque, e ela chegará de ambulância embaixo dos braços. Ligue, e ela vai adivinhar o que você precisa ouvir. Dê um beijo de carinho, e ela te devolve com dois. Ela é assim, às vezes irritantemente superior. Que bom pra todos nós.

Feliz Aniversário, Sandrinha.

Seja feliz, mas vá lá, onde a Felicidade está -- e não me pergunte o que só você sabe. Não espere, não a peça pelo telefone. Você merece, se dê esse presente hoje.

Um beijo.

terça-feira, janeiro 11, 2005

A honra, antes e depois da perda.

Assisti, enfim, a Fahrenheit 9/11, do mega-chato (mesmo) Michael Moore. Depois de meses lendo e ouvindo a respeito do documentário de maior sucesso da história cinematográfica americana. Sabedor dos defeitos de seu autor, das críticas que o filme recebeu e de seu propósito fracassado de contribuir para a queda de Jesus W. Christ, o assisti, meio melancólico e cético. Esperei o documentário viciado que alardearam, a parcialidade e a panfletagem democrata escancarada. E vi tudo isso, num filme extremamente bem editado e bem guiado, o que, para um documentário, não é exatamente um elogio.

Mas vi, como tantos viram, o extremo da hipocrisia no qual a sociedade americana se entrincheirou. E não constato isso como um brasileiro (portanto quase um antiamericano de nascença) que odeia os yankees. Não, levo uma vida até bem americana. Assisto às sitcoms e aos filmes deles, ouço as músicas deles e uso as roupas deles. Os admiro pelo que sempre foram, um país empreendedor e dinâmico, sem frescuras, sem grandes pompas e solenidades.

Mas Fahrenheit contribui, assim mesmo, meio cheio de cartazes e partidarismo, para retratar o americano de verdade. Não o negociador, o acionista, o CEO, o âncora de tevê cheio de habilidades. Não vi celebridades – a não ser Britney Spears, injustamente incluída como ícone da babaquice e da ignorância formadora de opiniões. Não digo isso com ironia. Michael Moore, mala que é, usa o expediente desnecessário e tolo de "desconstruir" os produtos de massa dos incautos. Panfletário e pretensioso demais.

Mas é a hipocrisia humana (não apenas americana) a grande vedete do filme. São os soldados, dentro dos tanques, matando seres verdes através dum visor infravermelho ao som de heavy metal, que mostram o pior. Gente que diz não entender por que o Iraque os odeia. É na guerra que vemos mais claramente o fator humano, logo bizarro, da guerra. O americano é o garoto mimado do condomínio de luxo, que ganhou no Natal um fuzil de última geração, e que está procurando ação, algo que combine com seus discos de black metal. O americano precisa de adrenalina, de trilha sonora, de um empurrãozinho de tudo o que o cercou durante a vida. Para torturar gatinhos e infernizar a vida do filho do porteiro o garoto do condomínio precisa estar alto, quase em transe. Sabe os russos, os colombianos, os vietcongues e os terroristas dos filmes, sempre cruéis, arrogantes e impiedosos com o mocinho dos filmes, até serem mortos? Esquece, eles não existem. Nesse mundo, my fellow, não há mocinho.

Michael Moore mostra a mulher americana comum, patriota, gorda e religiosa, mandando a família para as guerras ao longo da vida, crendo, hipócrita que é, que sua nação é a Escolhida. Hipócrita, porque manda seus filhos ao front para que eles fujam do desemprego de Flynt, sua cidadezinha modorrenta, de gente balofa, semi-analfabeta e pobre (a cidade natal do diretor), mas crente em Deus-Pai.

E eles, os soldados, são hipócritas, não porque americanos, mas porque humanos, mal-criados dentro de seu condomínio, com seu vídeo game, seus Doritos e seus discos de Marilyn Manson. Aguardam, com ansiedade, o começo da ação, loucos para detonar os "ali babás", matar todo mundo, zerar o jogo e voltar pra casa. Até ali estão orgulhosos em defender a pátria. Depois de umas pernas amputadas e uns estilhaços pelo corpo, viram-se contra o pai, como quem diz "Pô, pai! Não gostei desse jogo não!". São os donos da bola, e não sabem perder. São a nação da guerra, mas não sabem lutar, apenas jogar. Como garotos de condomínio, adoecem por qualquer garoa, não podem andar descalços nem tomar sereno. Já passaram por isso décadas atrás, e estão de novo chorando no meio do campinho de terra batida, reclamando das pernadas e dos dribles dos boleiros da periferia. Confesso, senti prazer no desolamento daqueles valorosos recrutas.

Mas isso não é o fim. Pensar nisso, vê-los assim, tão de perto, é triste, mas reconfortante. Saber que mais uma americana precisou perder seu filho para abrir os olhos tem seu lado bom. Essa não manda mais ninguém da família para a guerra. Ver que o americano caindo na real é muito, mas muito bom. Dá uma sensação de justiça, sabe? Tenho prazer em ver a hipocrisia recolhendo sua bandeira da frente do quintal, o patriotismo (sempre, sempre imbecil) caindo com a notícia da perda. Há o preço, triste, a pagar, mas a lição entra na cabeça que é uma beleza. O mundo ficaria em paz por séculos se cada americano perdesse um filho em combate. A América ficaria chata de tão zen.

O americano precisa perder para deixar de ser hipócrita. Precisa ser mutilado e humilhado, como foi no Vietnã, para poder sair à rua, de cadeira de rodas, contra suas guerras mentirosas. Precisa sentir a dor do luto. Precisa ver, em frente à tevê, com um balde de frango frito no colo, que seus pimpolhos estão morrendo, pra poder começar a desaprovar seus governos. A morte é o mais amargo e o mais eficaz dos remédios para o mal da hipocrisia americana. Bush é coadjuvante nesse filme. Pra mim o Oscar vai para a Hipocrisia. Hipocrisia que também ele, Michael Moore, mostra, tentando nos fazer achar que a sociedade americana não sabe o que lhe fazem. Hipocrisia de tentar nos fazer acreditar que o americano é lutador, honrado e fiel à pátria. Não é, como ninguém é no mundo, quando pego de surpresa pela realidade do campinho de terra batida da periferia.

Numa guerra perdida ninguém tem pátria, só sequelas e reclamações.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

O cume da estupidez


Não há nada mais idiota do que o esporte radical. E não há pessoas mais idiotas do que os praticantes dos esportes radicais. Mas nessa imensa e crescente classe, a dos idiotas que praticam esportes radicais, há uma elite, a diretoria, o topo da pirâmide da idiotice: os alpinistas. Nessa pirâmide estúpida de bungee-jumpers, paraquedistas, praticantes de rafting, rapel, paraglide, os alpinistas estão no cume, definitivamente.

Alguém que decide gastar milhares de dólares numa missão da qual provavelmente não voltará, e se prepara para isso durante 7 meses, é idiota. Agora a imprensa brasileira se dedica à história do casal de dentistas idiotas que durante 7 meses planejou, para suas férias, subir numa montanha de gelo, a 30 graus negativos, e tomar tempestades de neve diárias, com o perigo constante de congelar, de se perder, de ser soterrado por uma avalanche. Não entendo essa atenção toda da imprensa a essa gente idiota que gasta fortuna tentando morrer congelado a 7000 metros de altitude. A imprensa brasileira tem mais com o que se preocupar.

O pior é que a idiota que sobreviveu vai correr o país daqui a alguns meses, fazendo palestras motivacionais, falando pra gente ainda mais idiota.

sábado, janeiro 08, 2005

Ah, a Engenharia da Produção...

Há cinco anos o governo americano financia a destruição das plantações de coca colombiana. 92% das plantações do estado de Putumayo foram destruídas. Mas o que os americanos não entendiam era por que a produção de cocaína colombiana mantinha-se no mesmo ritmo, com o mesmo volume. Prova disso era o preço do pó, que no mercado americano, o maior do mundo também na cocaína, caíra 31% em relação a 2000.

O segredo: Os colombianos criaram a cocaína transgênica, mais produtiva e resistente aos herbicidas.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Goodfellas, based on a true story


Tommy fuzila o garção que demorava a atendê-lo

Em Os Bons Companheiros (1990), Tommy DeVito (Joe Pesci) é um mafioso sanguinário e estabanado, que mata Billy Batts, importante figura do mundo do crime nova-iorquino, apenas por ter sido lembrado de suas origens humildes, quando engraxava os sapatos dos figurões da cidade. Tommy é assim, grita muito, faz muita besteira e por várias vezes quase põe a perder o ganha-pão de seus amigos criminosos, por simples burrice. Impulsivo, imprevisível, desarticulado e virulento, mata a esmo e fala demais, causando mais estragos em casa do que no inimigo. Mas é quando aceita fazer parte do esquema de tráfico de cocaína de Henry (Ray Liotta), o garoto do Brooklyn, que fica evidente que Tommy não serve à máfia. Paulie Cícero (Paul Sorvino), o big boss, não aceita drogas nas atividades da máfia italiana. Mas Tommy, convencido por Henry, vai atrás do pó. Quando é finalmente aceito no exclusivo mundo da máfia siciliana, seu sonho de mafioso amador, recebe tapinhas nas costas, beijos nas bochechas e... um balaço na nuca. A máfia não esquecera Billy Batts. A máfia nunca esquece.

Fosse a máfia amazonense baseada no código de conduta de Goodfellas, o nosso Tommy DeVito, que é louco para ser aceito na exclusiva roda de seus ídolos, já teria tomado uma bala na nuca. Já vimos os beijos nas bochechas, os tapinhas nas costas. Falta a bala, falta a bala. Nosso Tommy também atrapalha mais do que ajuda. Numa demonstração de amadorismo e falta de imaginação, inventou histórias fantas, de filhos bastardos, sobre seus inimigos. Talvez seja essa trapalhada o Billy Batts do nosso Tommy. Tommy faz muito barulho, não tem estilo, inteligência e habilidade. Se envolveu também com pó, mas os chefões já o haviam perdoado, bem como a justiça. O nosso Tommy também tem sangue puro, exigência da tradicional máfia siciliana, onde mestiços não podem entrar.

Mas a paciência dos chefões sempre acaba. Tommy DeVito que se cuide. A máfia nunca esquece quem a atrapalha, corta na própria carne quando necessário.

E eu vou torcer para isso. Não gosto de finais felizes.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

O Conde e as Raimuringas**


Dizia o sábio Conde Weissefüderr* que, entre outros efeitos indesejados, a exposição sistemática e continuada ao álcool - e ao arremedo de samba chamado pagode - afeta a escala de valores pessoais que cada um de nós traz durante a sobriedade. Por isso, pontificava o Conde, para o que sóbrios costumamos apreciar, embebidos em cerveja criamos asco. Embriagados encontramos uma beleza exótica, mas enorme, nas coisas mais feias. O álcool tem dessas. Meros conhecidos tornam-se amigos, feios ficam lindos, pobres ficam ricos, beócios subitamente falam línguas perdidas.

Também constantemente embriagados passamos a catar milho muito mal, trocando letras muito próximas no teclado, como Us e Is, ésses e zês. Claro, balela pura. Há gente que justifique um "servisso" com a coitada da pressa, que não fez mal a ninguém. Mas são os Us e Is, ali, feitos unha e carne nos teclados, que teimam em se estapear e brigar por um lugar ao sol. Quando os bêbados observados pelo Conde queriam falar U, saía um I, e vice-versa.

Conhecido pela sisudez e pela ranzinzice, o Conde não perdoava. Como castigo pelos erros de grafia, condenava suas ébrias e gargalhantes cobaias ao confinamento de sua empoeirada e escura biblioteca e a escrever repetidamente na lousa verde-musgo a grafia correta das palavras. Certa vez irritou-se muito com três letrinhas bobas, com um U no meio. A palavra era VUP, sigla em inglês que designa pessoas muito feias, Very Ugly People. Mas seus pupilos teimavam em escrever VIP, catando milho com suas unhazinhas pink.

Eu sei, eu sei. Uma tela em branco dando sopa é a oficina do diabo, indeed.
_____________
* A pronúncia é Vaize-fiúderr!
** Raimuringa é o nome de guerra genérico daquela feia de cara, e de bunda pior ainda.

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Graças a Leonard Cohen

Refogava o recheio do peru.
Lembrou dos mortos, da irmã distante.
Sentiu saudade de algo, mas não sabia o quê.
A árvore, com enfeites cafonas, tocava Jingle Bells,
O sobrinho brincava com o carrinho novo.
O vinho barato trouxe um choro barato.
O telefone tocou, a campainha soou e a cerveja gelou.
Separou os miúdos do peru de que não gostava.
E chorou, enquanto o papa rezava o galo
Em latim, atrapalhado pela tradução.
Teve raiva do ano, dos jornais, dos fracassos.
A mãe tinha missa, a avó tinha culto.
Pensou palavrões, defendendo-se das emoções.
E percebeu, assim, o porquê do choro.
Era isso.
Parou de cortar a cebola.
Enxugou os olhos.

E a vida seguiu.

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Deus está nos detalhes?

Na manhã de domingo as placas tectônicas do fundo do Oceano Índico moveram-se em até 30 metros, o que teria afetado até o movimento de rotação do planeta. Os dias teriam sido encurtados, a partir de domingo, em uma fração de segundo. Enquanto isso acontecia, Faye Wachs se refugiava, sem saber, no mais seguro dos locais: o Mar.

terça-feira, dezembro 28, 2004

Ele se mexeu. O monstro se mexeu.


Não sei. Às vezes acho que o mar não gosta da gente. Presto atenção ao movimento dele e parece que ele nos cospe de volta à terra, regurgitando corpos estranhos. Sempre que vejo um surfista remando mar adentro, e voltando depois numa parede de espuma, penso nisso. A gente tenta entrar, mas ele sempre nos devolve. Os surfistas são felizes. São os bicões que entram na festa escondidos, rumo aos fundos, mesmo sabendo que serão apanhados. Antes de escurraçados, porém, curtem um pouquinho. Tiram onda com a cara do mar, tomam tubos petulantes e deslizam sobre o seu topete espumante. O mar é talvez o que temos de mais bonito pra ver, mas mata. E precisamos dele, claro. Os gnus também precisam beber água. À beira do rio, ali, ao alcance do monstro. E o monstro não gosta da gente.

Talvez 30 mil tenham morrido ontem. É, o monstro pegou pesado.

O pior é que a natureza não se vingou. Deu só uma tussidinha.

Agora é chorar, reconstruir e esperar a próxima golfada.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Ôxi, mamãe...

E aquela belezinha dos flogs, de gorrinho natalino e boquinha sexy, pede, toda melancólica, abaixo de sua fotinho:

Gente, por favor leiam o que eu tenho a dizer.

O mundo é anti-Sprite.

Imagem é tudo.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

No Shopping Center

- Pois não, senhor?
- Ehh... tô procurando um presente...
- Claro. E seria pra homem ou mulher?
- Homem.
- Olha, eu tô com essa blusa que chegou agora, lançamento...
- É que... acho que não é muito o estilo do cara, não.
- Ele tem alguma preferência? Camisa, calça, cinto?
- Não deve ser desses caras moderninhos, não.
- Olha, tem também essa carteira. Tá saindo muito.
- Acho que não, ele sempre diz que não gosta dessas coisas.
- Deixover... qual seria a idade dele?
- Aí é que tá, moça. São 2004 anos. O pior é que tão dizendo que ele
nasceu seis anos antes dele mesmo, pode?
- Como?
- Compliquei, né? É que a grana tá meio curta, sabe, e eu decidi não
dar nada pra ninguém esse ano. Só pra ele. Não é ele o aniversariante?
- [constrangida] Ehh... Bem...
- O problema é que ninguém sabe o gosto dele. E eu não quero arriscar
comprar algo que fique justo ou grande demais, sabe?
- hum-rum, hum-rum...
- Além disso, CD tá mais caro que roupa, né? E lá pras bandas dele
parece que já tem uma banda inteira, só de harpas e trombetas. Não vou
comprar esses discos de 9,90 chamados "A Harpa do Natal". É meio
que comprar vinho pra gente chique, sabe? Vai que eu levo porcaria...
- pois não, senhora...[atendendo outra cliente]
- Ei, moça. E aí, você não vai me ajudar?
- Infelizmente não sei como, senhor.
- Mas eu já te expliquei tudo. O cara é homem, solteiro, é velho e não
gosta de carteiras nem de roupas moderninhas...
- Faça o seguinte, senhor: dê de presente um vale-presente. Olha, tem
de 20, 30, 50, 100 e 200 reais. Você dá o vale de presente, e o seu
amigo vem aqui, escolher o que quiser. Fica mais fácil, não?
- É, gostei. Ele mesmo vem escolher o presente?
- ã-hã.
- Beleza, acho que ele vai gostar. Tudo bem que ele vai ter que vir ao
shopping, e você já sabe, né? Shopping Center e homem não combinam...
Bom, pelo menos ele não tem mulher pra deixar ele esperando na porta do
provador, de bolsinha no ombro, em silêncio, junto com os outros
maridos, coitados.
- Claro, senhora... e seria pra homem ou mulher?


Cartoon de Natal do Arnaldo Branco, do Mau Humor
Natal.

Obrigado, meu Deus.

Obrigado.

E volta logo. Você faz muita falta por aqui.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

23 de Dezembro. Manhã de Chuva. 1999.

O teu jeito de dizer que me ama,
E o jeito de me defender de tudo.
O medo do escuro,
Depois do filme bobo,
E o jeito de dormir em segundos.

Os teus 30 tipos de riso,
E a tua elegância inata.
O teu cheiro, os sinais e as curvas.
O jeito como cruzas os pés nos meus
Na cama, debaixo do cobertor.

A tua vontade de ser feliz
E a admiração que inspiras
São minhas paixões.

Ao teu lado quero ser melhor,
Mais homem, mais maduro,
Só pra te acompanhar,
Querendo tua admiração,
Feito menino carente.

Gosto de te ver de longe,
Falando com as pessoas, rindo.
E de sorrir discreto, te admirando.

Queria cantar pra você,
E falar baixinho no teu ouvido,
Pra te roubar de novo aquele primeiro beijo.
Queria te conquistar com meus discos,
E ver de novo garçons levantando cadeiras, apagando luzes,
Nos deixando dançar Summertime,
Quase parados, entre mesas vazias.

Não quero muita coisa,
Não planejo muita coisa,
Quero apenas ser,
Pelo resto da vida, teu marido.

Eu te amo, Hellen.
Muito.
Muito, muito.
Mesmo.
Mesmo, mesmo.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Ide e pregai, até os confins da Terra

Padre Sérgio Lúcio vai embora de Manaus.

Para Belém.

Milhares de empregos diretos e indiretos migram para o Pará.

Nosso Painho, que na língua dos arueu-auau significa “Aquele que Faz”, ora ainda lambendo feridas, fosse prefeito/senador/governador, macho que é, essa hora já estaria no Vaticano, de sobretudo, acompanhado por comitiva de 40 aspones, lutando bravamente pela manutenção dos incentivos paroquiais da Zona Franca Sacra de Manaus, depois de ter procurado a sede da CNBB, vazia e abandonada pelos arcebispos, ocupados, em Brasília, com os resultados da próxima reunião do Copom. Só voltaria com promessas firmes do velhinho de branco.

Mas voltará em 2006, terço suado na mão, com a brand new Zona Franca Cristã, o novo "Projeto da Minha Vida": devolver o pároco de São José Operário aos seus 50 mil discípulos. Custe o que custar, que ele não é leso, maninho. Já vejo as belezuras da Juventude Amazonista nos cruzamentos, adesivando Astras e Golfs com "O Negão é Fiel!" e fazendo Novenas VIP nos postos de gasolina, regadas a água benta que desce redondo.

E eu que teimo em ver motivações políticas em quase tudo o que a Santíssima Igreja faz.

A linha de produção de pessoas únicas

Eu preferia a época em que éramos todos reprimidos, uns sentimentais enrustidos. O medo de gostar, de chorar, de abraçar... As relações com os pais eram muito mais complicadas. Um abraço ou um “eu te amo, pai” eram coisa rara, de gente pra frente, o que era raro. Chamar os pais de "tu" era coisa apenas dos meus vizinhos cariocas, que emprestavam pro pai camisetas da Quebra-Mar. Eu preferia a reverência das antigas. Hoje todo mundo se ama, se adora. Aliás, se dóla. A despeito do alarde que se faz à modernização das relações, é tudo polarizado demais. Ou se ama ou se odeia tudo. Ninguém mais tem meio-termo, e ficou feio não ter opiniões formadas sobre tudo. Fissão nuclear? eu adoro. A anorexia da princesa da Suécia ou os cuidados extremos com os pandas albinos da China? Detesto, acho um ó.

Dizer "eu te amo" não tem mais o mesmo efeito. A balada do fundo sumiu, a brisa não sopra mais nos cabelos, o olhar e o beijo que se seguem não ficam mais em câmera lenta. Amar é o primeiro estágio de qualquer relação, e odiar também. Beijo de língua virou cumprimento, e todo mundo se dóla se os primeiros dois dias de qualquer relação forem amistosos. Titubear nos julgamentos é não ter personalidade forte, o que todos, absolutamente todos têm hoje em dia. Sou aquele filho à moda antiga, ainda chamo de "senhora" a mãe. Odeio poucas coisas e pessoas. Sim, odeio, e isso é saudável, seguidores dos mantras paraguaios do Dalai Lama. Mas o meu ódio e o meu amor têm mais sustança. São da época em que um "Eu te odeio!" vinha depois de anos de uma relação difícil com o pai, com um irmão, com a mãe. Geralmente eram o clímax do folhetim da vida real, quando ainda havia "cenas do próximo capítulo".

Amar e odiar estão na moda. No sentido ruim, mesmo.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

E é esse povo que tá in charge agora

Durante quase dois anos Alexandra Pelosi, jornalista da NBC, acompanhou o então governador do Texas em sua campanha à presidência. Com uma câmera de mão, filmou e entrevistou Bush e seus assessores. As imagens e entrevistas viraram "Journeys with George", um documentário que mostra um Bush simpático, galanteador, piadista e... só. A certa altura, Alexandra, sentada a seu lado no avião, pergunta:

- Por que eu, uma democrata, liberal, deveria votar no senhor?
- Porque vai ser melhor pra você.
- É por isso?!
- Sim, é por isso.

Bush canta a jornalista, faz caretas para a câmera, provocando risadas de seus assessores e rebate habilmente questões mais espinhosas, sempre com uma piadinha, seguida das atentas e ágeis risadinhas. Bush prova também que os americanos gostam de moleques riquinhos, farreiros e bêbados, contanto que eles tenham cojones pra admitir isso, até com certo orgulho. Se Nixon quisesse, teria admitido seus erros. Tornaria-se queridíssimo. Pois é.

A HBO comprou o filme e o lançou. A crítica detestou. Disse que o filme é superficial demais, sem conteúdo algum. Alexandra ficou contente, e disse:

- Que bom, porque ele é exatamente sobre isso: algo que não tem conteúdo algum.

sábado, dezembro 18, 2004

O charme internacional da 'baianada'

Fernando Henrique, o príncipe, teria sido grampeado clandestinamente durante as negociações para a privatização da Telebrás. Àquela época surgiram nomes, rumores, boatos, intrigas e investigações. E muito se falou sobre ela, a tal Esquerda, que estaria por trás dessa violência absurda à madura e consolidada democracia de mentirinha nacional. O efelentífimo Lula, o pau-de-arara semi-analfabeto que teima em causar azias nas olavetes de plantão, parece ter sido grampeado, junto com Jaques Chirac, enquanto esteve na sede da ONU, em Nova Iorque. A sala supostamente grampeada foi também usada por Colin Powell e Kofi Anann durante as vésperas da invasão do Iraque. Deduzindo, brasileiro orgulhoso que sou, só posso dizer que foi atrás de Lula e de sua proposta de combate à fome mundial que os meliantes estavam. Quem são Chirac, Powell e Anann?!

Apesar de todas as petices de sua corte, Lula mantém as rédeas do governo, sabiamente tomando para si certas decisões que caberiam aos 'ches' do partidão, não aquele, o PT mesmo. Os indicadores são lindos: superávit lá em cima, artificialmente ou não, desemprego em queda, produção industrial e agrícola nas alturas, exportações deslanchando, etc.

FHC e suas tietes, contrariados, torcem o nariz. Chamam de incompetente o governo que segue sua cartilha e partem para as frases de efeito acadêmicas. Inveja maior deve sentir, ele, FHC, de mais esse sucesso do efelentífimo. Ele, FHC, foi grampeado aqui mesmo, no Bananão, sobre assuntos domésticos, sem charme, sem sotaque sorbonês. O torneiro não. Foi grampeado com um avançadíssimo sistema de escuta de fabricação européia (quem sabe russa) enquanto talvez dividisse garrafas de Romanés Contis com o Chirac, simpatizante do terrorismo islâmico, como se sabe. Isso tudo sem falar um 'ai' em americano. As olavetes se mordem nos dormitórios das universidades européias, decerto.

Mas Lula, provavelmente sem mesmo saber, segue a marcha triunfal da pobreza terceiro-mundista de sucesso. Meses atrás já havia lotado, monoglotamente, o auditório da London School of Economics. Provavelmente para desespero de Diogo Mainardi, que por lá esteve, se preparando para a nobre missão da elite intelectual brasileira (desculpe a expressão de baixo calão) de desconstruir - ui - os mitos da massa incauta brasileira, a saber: Lula e Gilberto Gil.

FHC disse certa vez que a Esquerda brasileira é burra. Concordo. A Esquerda brasileira é aquele chapéu com orelha de burro que se 'vestia', como castigo, nos alunos desordeiros de certas escolas. Não tem dono, o chapéu. O príncipe agora bate os pezinhos, esperneia e xinga, como todo malfazejo castigado pela professora. Ainda não percebeu o chapelão em sua cabeça.

Diriam as pretensamente mais virulentas e 'de-verdademente' inócuas línguas da yuppiezada brasileira: tenho vergonha dessa gente. A esquerda segue burra, mas agora fala inglês, my friend. Lula responderia, com seu americano more-or-less, e eu morreria de rir, com certeza: big shit, companheiro. A ONU tem fones de ouvido pra me traduzir, mané.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Numa manhã de más novas

As campanhas contra a fome, governamentais ou não, estão se tornando nichos de privilegiados, onde frescuras como a falta de comida são bobagens. Afirma o IBGE que há mais gente 'sofrendo' de excesso de comida no país do que gente gemendo de fome. Decerto surgirá quem diga que passar fome no país é um luxo, 'coisa pra poucos'.

What a wonderful world. Uma metade passa fome, a outra faz regime.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Por que não me orgulho dos polegares opostos

Você sabe qual o dia, no ano inteiro, em que ocorrem mais mortes?

O Natal.

Um estudo americano revela que o Natal é a data com o maior número de mortes do ano, excluídos os suicídios, assassinatos e acidentes. Os americanos simplesmente se recusam a ir aos hospitais pra não perder as festas.

Eis um dos porquês d'eu invejar as árvores.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

A Marta Registrada de São Paulo


Imelda Marcos: Somos auto-suficientes nisso

Marta Suplicy perdeu eleição. Abandonou a cidade com seus túneis inacabados, alagados pela chuva, seus CEUS com funcionários sem salário e alunos sem farda, 2 bilhões em dívidas não pagas e com o Tesouro Nacional batendo à porta, pra sequestrar o que foi sonegado do Governo Federal.

Foi a Milão, coberta de jóias e laquê, para a reabertura do Teatro Alla Scala, a meca da Ópera.

Eu não consigo lembrar de algo mais legitimamente paulistano do que a Marta, véio. Nem o filho, nem os maridos - os dois -, que perdem, tipo assim, por muito pouco.

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Welcome to the jungle, baby

Alfredinho Valois

Domingos Chalub, o menos votado na eleição para a última vaga de desembargador no Amazonas, é o novo desembargador. Félix Valois, o mais votado, sequer teve o nome incluído na lista de três enviada ao governador. Motivos? Não faço idéia, mas com certeza são os mais nobres, elevados e autruístas que se pode imaginar.

Alfredo Valois, filho de Félix, publica carta aberta ao pai no jornal A Crítica, falando do orgulho de ser seu filho e reclamando da injustiça cometida contra o pai, o mais votado pela classe. Ressalta, magoado, que o Legal foi o escolhido, em detrimento do Justo. Bonito, bonito.

Ué, Alfredinho, você, filho de macaco velho, ainda não sabia que a Justiça funciona assim?!

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Vin Diesel vai bombar!


Rumsfeld e Bush pedem ajuda (rárárá) à OTAN, mas os europeus não pretendem mandar seus soldados pra limpar a cagada dos outros. Nesta quarta os soldados americanos, que já não andam tão patriotas quanto antes, partiram pra cima do Pato Donald, reclamando da falta de homens, de armas inadequadas e do tempo de permanência no Iraque, que foi prorrogado. Os cruzados de Bush, que há dois anos dariam a vida pela Liberdade e pela Nação, agora esperneiam ao saber que vão ter que ficar mais tempo disparando liberdade e democracia pra cima dos traiçoeiros civis iraquianos.

Sou só eu ou mais alguém já consegue imaginar a enxurrada de dramas de guerra que invadirá Hollywood daqui a alguns anos? Bom, sejamos razoáveis, já era hora de os cineastas americanos largarem a carniça do Vietnã.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Yes! Мария Шарапова!

O mundo está cheio de horrores
de tragédias e terrores
e gente de má fuça.
Mas de vez em quando aparece
cada tenista russa!

Os versinhos são dele,
o LFV, na série Poesia
Numa Hora Dessas.

Esta é a Sharapova,
mas há Kournikovas,
Bulovas,
Wiborowas...

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Para Luciana. Para Amaury.

Eu costumava achar que as pessoas eram eternas, e por isso as deixava na minha prateleira da sala, enfeitando a estante da minha vida. Sempre lustrada, impecável, mas uma prateleira. Agi assim, fria e casualmente, até que amigos morressem sem um abraço, sem um beijo. Há coisas que nunca mais poderei dizer e beijos que nunca mais poderei dar em pessoas que caíram daquela prateleira, sem que sequer eu estivesse perto.

Hoje sou diferente, e devo isso, além de aos tombos e bênçãos dessas três décadas, a duas pessoas belíssimas, com as quais tenho dividido saúde e doença, riqueza e pobreza, alegria e tristeza. Sou quase sempre a imagem insondável do silêncio, e por isso talvez eles não saibam quanto eu os amo. E eu os amo, muito. Em cada riso, em cada abraço, em cada beijo, em cada olhar, em cada tristeza e em cada dor, eu os amo. Nela amo a curiosidade patológica, a inteligência afiada, a frieza com que rouba no jogo, aquele ar de patricinha cínica, que esconde o mulherão que ela é, ao mesmo tempo poderosa e manteiga derretida. Nele amo a afinação única com que canta cada música do acervo mental absurdo que tem, a paixão com que fala de política e de Jorge Amado e o carinho e generosidade com que fala dos amigos. Nele amo as “tiradas” de mestre, o humor ferino e a sinceridade dos beijos amigos quando o abraço. Neles amo a cumplicidade, o amor, a amizade os até os vícios. Neles amo as pequenas e as grandes coisas, mas acima de tudo as pessoas que são.

Amanhã, numa bela duma sexta-feira de dezembro, eles se casam. Inauguram o primeiro ano do resto não só de suas vidas, mas de todas as nossas, os amigos, os irmãos, os pais e os filhos que ainda teremos. A partir de amanhã nos tornamos mais homens, mais mulheres, mais adultos, e as coisas de menino ficarão um pouco mais pra trás. Terão filhos que brincarão no meu quintal e sentarão no meu colo. Carregarão os meus filhos na loja de brinquedos, fazendo-os pedir o mais caro dos carrinhos de controle remoto. Reclamarão de dívidas e dividirão prazeres. Brigarão por toalhas molhadas e chaves perdidas e como todos os casais, sem perceber vão trocar a seção de CDs da loja pela seção de móveis. Recusarão, prazerosos, as madrugadas ébrias, pra curtir a casa, os filhos, o edredon e o DVD.

Eu sei, e como é bom saber que vai ser assim.

A partir de amanhã eles serão mais felizes.

E eu também.